sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Da sinceridade







Um dia qualquer em uma dimensão paralela na qual as pessoas são francas consigo e com os outros:

-Olá! Tenho andado tão triste e minha vida está repleta de tédio. Posso brincar com os seus sentimentos?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Da nostalgia retocada


Dia desses observei um rapaz contando para mim histórias encenadas às gargalhadas. Admirei por alguns instantes a sua leveza, a sua graça, e considerei que seria um pecado não absorver cada detalhe daquela narrativa sobre um dia há muito tempo atrás passado no colégio, do qual eu também participei. Decidi que preferiria guardar as lembranças daquela história contada pelas palavras dele, e não mais da experiência real que vivi, tal era a beleza da interpretação. 

Terminada a história ele sentou no gramado do parque, eu me levantei e contei uma história para ele. Uma histórias às gargalhadas sobre um dia há muito tempo atrás, quando a vida era leve assim como aquele momento. 



sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Um ano mais

Sou grata por todos os encontros reencontrados diversas vezes no caminho.

Desejo que no ano por vir tenha a graça de me reencontrar em várias ocasiões, e, a cada vez, que retorne carregando diferentes vivencias do mundo exterior ao meu. Pois o mais prazeroso delírio sempre esteve em, quando perdida, deparar comigo.

Mais uma etapa da jornada se vai.



Belchior, cumpri minha promessa: neste ano eu não morri.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Desanuviar

Hoje choveu.
Choveu em ritmo de guitarra espanhola, me esfriou as mãos, molhou a terra, e me tocou a pele.
Choveu como quem chorasse.
Senti o cheiro do inverno me nublando a alma e inundando gradativamente o coração no líquido amargo de algumas lembranças.
Mensurei a dimensão do dilúvio que minha memória sensorial pode trazer, e entendi que preciso com urgência construir novas recordações de fim de ano.
Que a chuva regue vivências de paz,
e não de mal.




"Vai embora nuvem, vai embora e não vem mais"


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Comentário a respeito da felicidade


A felicidade é como um artefato cobiçado que gradativamente torna-se aquecido em nossas mãos. De forma que, no processo de superaquecimento, chega o momento no qual não o conseguimos segurar. E por não conseguirmos empunhá-lo, resta-nos poucos períodos de tempo para desfrutar de sua posse e, quanto mais resistimos a deixá-lo cair, mais abrupta, violenta e dolorosa é a queda.


*Baseado em um pensamento de Andressa Passos.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Sonora



Ouço flores. Não todo o tempo, porém com cada vez mais frequência.
Me deleito em absorver os aromas amadeirados que emanam em nuanças multicoloridas.
Fecho os olhos e aspiro a energia da batida progressiva desse ritmo, e me deixo bailar, pois reconheço que o compasso vem do jardim dos teus sorrisos.


terça-feira, 30 de agosto de 2011

Etéreo



Consagro meus gracejos àqueles teus sorrisos solares que tanto me aquecem.

E enquanto irradia meu horizonte, empenho-me em capturar toda essa beleza e melodia, para que, mesmo só por agora, sejam para sempre meus.







quinta-feira, 7 de julho de 2011

Não desista de mim


Cuida de mim enquanto finjo, enquanto fujo.
(Fernando Anitelli)



segunda-feira, 20 de junho de 2011

Do envolvimento






Como reconhecer um novo amor que cresce em silêncio?

Uma amiga deu a dica. Disse-me:

Se há inquietação, seja o que for,vocês já sentem alguma coisa. E se tudo for terno, envolvente, pacífico, amigo, esperançoso... é amor.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Das primazias



Uma amiga ensinou-me sobre as prioridades de cada alma.

Surpresa ao ver em mim alguma mudança de hábitos, discursos e atitudes, começamos uma conversa sobre como as pessoas se transformam com o decorrer do tempo.

Em determinado momento perguntei o que, em sua opinião, muda mais as pessoas: o amor ou a falta de amor.

Ao que ela respondeu: A falta de sexo.





Irromper


Me desperdiço, me doo, me comovo, me arrebento de existir.
(Fabrício Carpinejar)




sexta-feira, 1 de abril de 2011

Prosa

Prezo muito por minhas companhias, quer sejam elas boas ou más.

Quando compartilho uma boa conversa com elas, por mais abstrata que seja, é delicioso observar e absorver fragmentos de percepções, experiências e conhecimentos nativos do mundo que construíram para si.

Do mesmo modo apetecem-me os diálogos inconclusivos, nos quais aprendemos a construir caminhos impregnados das mais diversas essências humanas, sem, no entanto, esgotar as considerações e ponderações sobre o assunto. Assim como tudo na vida deve ser.

Mais do que agradável, é sempre bom ouvir pessoas, especialmente quando elas têm algo a dizer.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Rs



Preciso ouvir uma risada nova, daquelas com algum ruído peculiar que imprima em mim uma nova melodia de alegria.

Quero que esse som ecoe em minha mente e me traga riso e rosas. Desejo que seja inusitado, que seja espontâneo, que seja para mim.


terça-feira, 29 de março de 2011

Sinestesia


Não havia som, nem imagem, gosto, toque, muito menos cheiro. A fase em que se preocupava com esses sentidos já havia passado. Seu corpo não detinha para si a mesma estima que antigamente, suas sensações não tinham a mesma importância. Toda sua vida até então não passava de ilusões e sonhos embalados por batidas vintage. O tempo que dura um segundo também havia perdido sua legitimidade.

- Desce mais uma rodada! – lembrava vagamente de flashes na memória falha e atemporal. – Hoje é dia de festa!

Quem eram aquelas pessoas que riam e comemoravam? Que sonho maluco aquele.
Sentia como que flutuando em uma grande piscina de ar. Os pensamentos boiavam em sua frente e ela os catava como se pegasse peixes emersos.
- Filha – dizia uma senhora muito alta usando maiô com estampa de bolinhas - use filtro solar no nariz também.
Se esse era um sonho, onde entrava a realidade?
- Quem vem comigo? Tô legal, tô de boa!
A pressão nas pernas e abdome fizeram sua sensibilidade aflorar ainda que pausadamente.
Dor. Mas de onde vem a dor? Seria do mesmo lugar de onde vinham os sonhos?
- Vamos voar! Eu quero voar! – lembrava disso. Essa voz era sua, seja lá quem ela fosse, e essa situação estava começando a incomodar.
Sangue. O gosto agora era sangue. Ela sentia como se ele jorrasse de dentro de seu diafragma.
- Puta merda, que lerdeza. Sai daí, seu lerdo! – havia mais uma voz, ela vinha do seu lado direito, mas não conseguia vislumbrar um rosto. Não lembrava nem de seu próprio rosto. Queria parar de pensar coisas sem nexo.
Luz, luz forte e vermelha. Quem ligou a luz? Abria e fechava os olhos, tudo parecia estar tomando forma e sentido. Estaria ela acordando? A dor agora estava por toda parte, estava tonta, desnorteada, sedenta.
- Tânia, Tânia. – Dizia a voz chorosa, amedrontada e desesperada à sua direita. Seria mais um surto? Era tão real.- O que aconteceu? Ai, meu Deus, você está bem? – a voz soluçava e falava baixinho, quase que sussurrada. Sem forças, sem esperanças.
Ela virou seu pescoço o máximo que pode em direção a voz. Levantou os olhos e mirou Valquíria, a amiga agora ensanguentada e retorcida à sua direita. Não era sonho. Sonhos não são tão opressivos.
O metal do motor aquecido e a gasolina começaram a exalar, misturando-se ao álcool nas suas roupas.
Medo e dor. Destes, o maior era a dor.
Subitamente queria que tudo aquilo fosse novamente um devaneio, mas não era.
A senhora do maiô estampado passou rapidamente pela mente quase lúcida de Tânia.
Como isso pôde acontecer logo com ela? Sempre foi uma exímia motorista, mesmo embriagada.
Lentamente todas as sensações começaram a amenizar.
Os pensamentos começaram a parar de rodar.
A respiração ficava mais pausada.
A dor não existia mais.
Não havia mais som, nem imagem, gosto, toque, muito menos cheiro.
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Esta crônica é de minha autoria, e está contida no livro "Caldo fino: Crônicas sobre o cotidiano no Amapá”, organizado pelas jornalistas Roberta Scheibe e Cláudia Assis.
"Sinestesia" retrata uma realidade muito corriqueira na cidade de Macapá: os acidentes de trânsito.
No livro você encontrará mais 23 crônicas de diversos autores, incluindo "A desculpa", também de minha autoria.

quarta-feira, 23 de março de 2011